domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pensar por si mesmo II

"[...] Da mesma maneira, no campo teórico também é preciso esperar pelo momento certo, e mesmo uma grande inteligência não é capaz de pensar por si mesma a todo o momento. Por isso, faz bem em dedicar o tempo restante à leitura, que constitui, como já foi dito, um substituto para o pensamento próprio e alimenta o espírito com materiais, à medida que um outro pensa por nós, embora o faça sempre de um modo que não é nosso. É justamente por isso que não se deve ler demais, para que o espírito não se acostume com a substituição e desaprenda a pensar, ou seja, para que ele não se acostume com trilhas já percorridas e para que o passo do pensamento alheio não provoque uma estranheza em relação a nosso próprio modo de andar. Mais do que tudo, deve-se evitar o perigo de perder completamente a visão do mundo real por causa da leitura, uma vez que o estímulo e a disposição para o pensamento próprio se encontram com muito mais frequência nessa visão do que na leitura. Pois o que é percebido, o que é real, em sua originalidade e força, constitui o objeto natural do espírito pensante e é capaz, com mais facilidade, de comovê-lo profundamente.
Após essas considerações, não nos espantará o fato de aquele que pensa por si mesmo e o filósofo livresco serem facilmente reconhecíveis já pela maneira como expõem suas idéias. O primeiro pela marca da seriedade, do caráter direto e da originalidade, pela autenticidade de todos os seus pensamentos e expressões; o segundo, em comparação, pelo fato de que tudo nele é de segunda mão. Trata-se de conceitos emprestados, de toda uma tralha reunida, material gasto e surrado, como a reprodução de uma reprodução. E seu estilo, constituído por frases banais e palavras correntes da moda, é como um pequeno Estado cuja circulação monetária consiste apenas de moedas estrangeiras, porque não cunha a sua própria.

SCHOPENHAUER - Parerga e Paralipomena

Pensar por si mesmo

"A relação existente entre um pensador de força própria e o típico filósofo livresco é semelhante à relação de uma testemunha direta com um historiador: o primeiro fala a partir de sua concepção própria e imediata das coisas. Por isso, no fundo, todos os que pensam por si mesmos estão de acordo, e sua diferença provém apenas da diversidade de pontos de vista ; quando tais pontos não variam, todos eles dizem a mesma coisa. Com frequencia, escrevi frases que hesitei em apresentar ao público, em função de seu caráter paradoxal, e depois as encontrei, para minha agradável surpresa, expressas literalmente nas obras antigas de grandes homens.
O filósofo livresco, por sua vez, relata o que este disse, o que aquele considerou, o que um terceiro objetou e assim por diante. Ele compara todas essas informações, põe na balança, critica e, assim, procura chegar à verdade por trás das coisas; com isso, se torna muito semelhante a um historiógrafo de visão crítica. Ele investigará, por exemplo, se em algum período Leibniz, mesmo que por um momento, foi um espinosista, e outras coisas do gênero. Exemplos bastante claros do que digo aqui são oferecidos aos aficionados e curiosos pela Elucidação Analítica da Moral e do Direito Natural, de Herbart, assim como por suas Cartas sobre a liberdade. São espantosos os grandes esforços feitos por alguém assim, porque parece que, se ele quisesse apreender as coisas de modo direto, chegaria logo à sua meta com o auxílio de um pouco de pensamento próprio. Só que há um pequeno contratempo nessa situação, uma vez que tal procedimento não depende da nossa vontade: é possível a qualquer momento sentar e ler, mas não sentar e pensar. Com os pensamentos ocorre a mesma coisa que se dá com as pessoas: não podemos chamá-las sempre, quando bem entendermos, de modo que só nos resta esperar por elas. O pensamento sobre determinado objeto precisa aparecer por si mesmo, por meio de um encontro feliz e harmonioso da ocasião exterior com a disposição e o estímulo internos, e é justamente esse encontro que nunca chegará a acontecer no caso daqueles filósofos livrescos. A explicação para esse fato se encontra até mesmo nos pensamentos que dizem respeito a nossos interesses pessoais. Quando, em certa ocasião, temos de tomar uma decisão, não podemos nos sentar por quanto tempo quisermos, refletir sobre os motivos e só então decidir, pois com frequencia a nossa capacidade de reflexão não consegue se fixar no assunto justamente nesse momento, mas escapa para outras coisas. E muitas vezes a culpa é da nossa contrariedade na ocasião. Nesses casos, não devemos forçar nada, apenas aguardar que a disposição propícia também se apresente por si mesma. Isso acontecerá e se repetirá, muitas vezes, de modo imprevisível, e cada disposição diferente, em uma ocasião diferente, lança uma outra luz sobre o assunto. Esse avanço lento é o que se compreende pela expressão amadurecer as resoluções. Pois o esforço de pensamento precisa ser dividido, assim como algo que passou despercebido acaba despertando nossa atenção e mesmo a contrariedade desaparece, já que os assuntos apreendidos claramente diante dos nossos olhos costumam parecer muito mais suportáveis."
[...]

SCHOPENHAUER - Parerga e Paralipomena

A Parábola do Semeador - Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec

5 - Jesus, ao sair de casa, sentou-se à beira-mar, e uma grande multidão de pessoas reuniu-se ao seu redor. Assim, Ele subiu em um barco, e...