segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A loucura fala..

Comecemos pelos juristas. Eles julgam-se os maiores de todos os sábios, e nenhum mortal se admira tanto quanto eles quando, a exemplo de Sísifo, rolam continuamente até o alto de uma montanha uma enorme pedra que torna a cair assim que chegou ao topo - isto é, quando eles entrelaçam quinhentas ou seiscentas leis umas com as outras, sem se importar se elas têm ou não relação com os assuntos de que tratam; quando amontoam glosas sobre glosas, citações sobre citações fazendo assim o vulgo acreditar que sua ciência é uma coisa muito difícil, Pois estão convencidos de que nada é mais admirável que o que custa muito esforço e trabalho.
Ponhamos na mesma classe os dialéticos e os sofistas, gente que faz mais barulho que os vasos de cobre do templo de Dodona, sendo que o menos tagarela superaria as vinte maiores mexeriqueiras que se pode encontrar sob o céu. Bom seria se não fizessem outra coisa que tagarelar; mas eles discutem e brigam com teimosia pelas coisas mais vãs e ridículas e, à força de alterações, perdem geralmente de vista a verdade que buscavam. O amor próprio os faz perfeitamente felizes. Armados de dois ou três silogismos,  não temem entrar na arena para enfrentar qualquer campeão ou discutir sobre qualquer assunto. Mesmo diante de Estentor, jamis os veríamos ceder; sua obstinação os torna invencíveis.
Depois deles vêm os filósofos, homens muito respeitáveis, seguramente, pela barba e o manto, homens que se orgulham de ser os únicos sábios da terra e que olham outros homens como sombras vãs que se agitam na superfície do globo. Que prazer sentem eles quando, em seu delírio filosófico, criam no universo uma quantidade inumerável de mundos diversos; quando nos dão a grandeza do sol, da lua, das estrelas e das outras esferas com tanta exatidão como se as tivessem medido com uma régua ou com barbante; quando nos explicam as causas do trovão, dos ventos, dos eclipses e outros fenômenos inexplicáveis, falando sempre com tanta confiança como se tivessem sido os secretários da natureza quando ela ordenou o mundo, ou como se acabasse de chegar do conselho dos deuses! Mas essa natureza, infinitamente acima de todas as pequenas ideias dos filósofos, zomba deles e de suas conjeturas. Uma prova bastante evidente de que não possuem nenhum conhecimento certo é que mantêm entre si, sobre suas diferentes opiniões, disputas das quais nada se pode compreender. Não sabem absolutamente nada e orgulham-se de saber tudo. Não conhecem nem a si próprios; às vezes, a fraqueza de sua visão ou a distração de seu espírito divagador faz que não vejam um buraco ou uma pedra à frente em seu caminho. No entanto, a ouvi-los, eles enxergam perfeitamente as ideias, os universais, as formas substanciais, a matéria primeira, as quididades, as ecceidades, as entidades, coisas tão minúsculas que não creio que um lince jamais pudesse percebê-las. /com que desprezo, sobretudo, não consideram o vulgo profano, quando sobrepões, uns sobre os outros, triângulos, círculos, quadrados e uma infinidade de outras figuras matemáticas entrelaçadas em forma de labirinto, ou quando, acrescentando a essas figuras letras dispostas em ordem de batalha, combinadas e recombinadas de mil maneiras diferentes, lançam trevas sobre as coisas mais claras e as tornam incompreensíveis aos ignorantes que os escutam! Vários deles, inclusive,orgulham-se de ler o futuro nos astros e prometem coisas que o maior mágico não ousaria prometer. Loucos felizes, que encontram gente bastante tola para acreditar neles!

(Erasmo de Rotterdam - Elogio da Loucura - L&PM)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Prece a Deus...

Já não é mais aos homens que me dirijo; é a ti, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos: se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidade e imperceptíveis ao resto do Universo ousar pedir-te alguma coisa, a ti que já lhes deste tudo, a ti, cujos decretos são tão imutáveis  como eternos, digna-Te a olhar com piedade os erros inerentes à nossa natureza; que esses não nos tragam calamidades. Tu que absolutamente não nos deste um coração para que nos odiássemos, nem mãos para que nos matássemos, faze com que nos ajudemos mutuamente a suportar os fardos de uma vida penosa e passageira; que as pequenas diferenças entre as vestes que cobrem nossos débeis corpos, entre todas as nossas linguagens insuficientes, entre todos os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas condições tão desproporcionadas a nossos olhos, porém tão iguais perante os Teus; que todas essas pequenas nuances que distinguem entre si os átomos chamados homens não sejam mais motivos de ódio e de perseguição; que esses que acendem círios à luz do meio-dia para Te celebrar suportem aqueles que se contentam com a luz de Teu sol; que esse que cobrem suas vestes com uma tolha branca para dizer que é preciso Te amar não detestem os que dizem o mesmo quando usam um manto de lã negra; que seja a mesma coisa Te adorar em um jargão derivado de uma antiga língua ou em um dialeto mais moderno; que esses cujas vestes são tintas de vermelho ou de roxo e que dominam uma pequena parcela de um pequeno fragmento da lama deste mundo e que possuem alguns fragmentos arredondados de um certo metal gozem sem orgulho daquilo que chamam de grandeza e de riquezas e que sejam contemplados pelos outros sem inveja; pois Tu sabes que nessas vaidades não existe nada a ser invejado, nem nada de que se orgulhar.
Que todos os homens possam recordar que são irmãos! Que encarem com horror toda tirania exercida sobre as almas assim como sentem execração pelos salteadores que arrebatam pela força o fruto pacífico do trabalho e da indústria! Se os flagelos da guerra forem inevitáveis, que não nos odiemos, nem nos dilaceremos uns aos outros no seio da paz e empreguemos este instante que é a nossa existência a bendizer igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia, Tua bondade que nos deu este instante.

(Voltaire - Tratado sobre a Tolerância - L&;PM POCKET)

(Que tenhamos todos, realmente, Boas Festas e muitos novos anos pela frente! Que estes novos anos sejam recebidos por nós, com o coração repleto de gratidão pelo grande presente concedido por Deus, que é a oportunidade de estarmos vivos, neste Planeta, aprendendo a lição mais difícil de todas: o amor!)

sábado, 26 de novembro de 2016

Quando o novo bater à sua porta, abra-a!

Você não pode trazer o novo para a sua vida; o novo vem. Você pode aceitá-lo ou rejeitá-lo.


Não há nada que você possa fazer para criar o novo, pois o que quer que faça pertencerá ao velho, será decorrência do passado.Mas isso não significa que você tenha que parar de agir. É agir sem desejo ou direção ou impulso vindos do passado - e isso é agir de modo meditativo. Agir espontaneamente. Deixe o momento decidir.
Você não impõe sua decisão, porque a decisão será fruto do passado e ele destruirá o novo. Você age de acordo com o momento, assim como uma criança. Abandone-se completamente ao momento - e você encontrará todos os dias novas aberturas, nova luz, novas introvisões. E essas novas introvisões continuarão a mudar você. O velho não mais subsiste, o velho não o envolve mais como uma névoa. Você é como uma gota de orvalho, fresca e jovem.
Esse é o verdadeiro significado da ressurreição. Se entender isso, você ficará livre da memória - da memória psicológica, quero dizer. A memória é uma coisa morta. A memória não é a verdade nem nunca poderá ser porque a verdade está sempre viva, a verdade é vida; a memória é a persistência daquilo que já não existe mais. É viver em um mundo fantasmagórico que nos limita, é a nossa prisão. Na verdade, esse mundo somos nós. A memória cria o embaraço, o complexo chamado "Eu", o ego. E, naturalmente, essa entidade falsa chamada "Eu" está continuamente com medo da morte. É por isso que você tem medo do novo.
Esse "Eu" é que tem medo, não é você. O ser não tem medo, mas o ego tem, pois ele morre de medo de morrer. O ego é artificial, é arbitrário, é construído. Ele pode se desintegrar a qualquer momento. E, quando o novo entra, surge o medo. O ego fica amedrontado, ele pode se desintegrar. De algum modo ele tem conseguido se manter, tem conseguido se conservar num só pedaço, e agora algo novo aparece - isso vai estilhaçá-lo. Eis porque você não aceita o novo com alegria. O ego não pode aceitar sua própria morte com alegria - como ele pode aceitar sua própria morte com alegria?
A menos que tenha entendido que você não é o ego, você não será capaz de receber o novo. Depois que tiver percebido que o ego é a sua memória do passado e nada mais, que você não é a sua memória, que a memória é só um biocomputador, é uma máquina, um mecanismo, um utilitário, mas que você é mais do que isso... você é consciência, não memória. A memória é um conteúdo da consciência, você é a própria consciência.
Para ser novo, é preciso que você deixe de se identificar com o ego. Depois que faz isso, você já não se importa se ele vai morrer ou viver. Na verdade, você sabe que, se viver ou morrer, ele de qualquer jeito já está morto. Ele é só um mecanismo. Use-o, mas não seja usado por ele. O ego está o tempo todo com medo da morte, pois ele é arbitrário, daí o medo. Ele não surge do ser; não pode surgir do ser, pois o ser é vida - como a vida pode ter medo da morte? A vida não sabe nada sobre a morte. O ego é fruto do arbitrário, do artificial, de algo que foi construído, do falso, do pseudo. E é justamente esse desapego, justamente essa morte do ego que faz um homem estar vivo. Morrer no ego é nascer para o ser.

(OSHO - Coragem - Editora Cultrix)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Crenças são coisas emprestadas a confiança é sua

A coisa mais difícil na vida é abandonar o passado - porque abandonar o passado significa abandonar toda a nossa identidade, toda a nossa personalidade. Significa renunciar a si mesmo. Porque você é o seu passado; você não é nada mais do que seus condicionamentos.
Largar o passado não é tão simples como trocar de roupa - na verdade, é como se a sua própria pele estivesse sendo arrancada. O seu passado, é tudo o que você conhece de si. E abandoná-lo não é fácil, é um trabalho árduo - é a coisa mais difícil que existe. Mas somente quem se atreve a fazer isso é que vive de verdade. Os demais apenas fingem que vivem, eles simplesmente vão se arrastando de alguma forma por aí. Não tem nenhuma vitalidade, nem poderiam ter. Eles vivem no mínimo, e viver assim é desperdiçar a coisa toda.
O florescimento só acontece quando você vive o seu potencial ao máximo. Deus só se manifesta quando o seu ser e a sua verdade atingem a sua máxima expressão - aí, sim, você começa a sentir a presença do divino.
Quanto mais você desaparece, mais você sente a presença do divino. Mas essa presença só é sentida mais tarde. A primeira condição a ser cumprida é esta: que você desapareça. É uma espécie de morte.
Por isso é tão difícil. Veja bem, os seus condicionamentos estão arraigados de forma muito profunda - desde sempre você vem sendo condicionado; bastou você nascer, e o condicionamento começou. Então, no momento em que você fica um pouco mais alerta, em que começa a se dar conta das coisas, os condicionamentos já se instalaram no âmago do seu ser. Nesse sentido, enquanto você não penetrar no núcleo mais profundo do seu ser - o centro que não foi condicionado, que é anterior aos condicionamentos -, enquanto não recuperar o seu silêncio e a sua inocência, você nunca vai saber realmente quem você é.
Você pode até saber que é hindu, cristão, comunista; pode saber que é indiano, chinês, japonês, e tantas outras coisas - mas tudo isso são apenas condicionamentos que lhe foram impostos.
Você veio ao mundo como um ser profundamente silencioso, puro, inocente. Sua inocência era absoluta.
Meditação significa penetrar nesse núcleo, o centro mais essencial do seu ser. Os praticantes do zen chamam isso de conhecer o seu "rosto original".

(OSHO - Vivendo Perigosamente - A aventura de ser quem você é - Editora Alaúde)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

As três categorias do samsara

1. A semente do samsara: o aturdimento

A semente do samsara é o completo oposto do buda ou despertar do sofrimento: é a ignorância, estupidez, aturdimento básico. O aturdimento é um estado psicológico que todos nós experimentamos; inclui o estado de sonho e o estado de sono. Devido ao aturdimento, estamos constantemente sem rumo, sem saber exatamente o que está acontecendo - que é o oposto da consciência ou de dar-se conta. Não ver, não saber, não ter a experiência do que está acontecendo uma constante ausência de rumo - essa é a semente do samsara.

2. A causa do samsara: a fixação.

A segunda categoria do samsara é a causa. A causa é aferrar-se a conceitos vagos. Isso é o que chamamos "fixação", ou dzinpa, em tibetano. Dzin signifca "agarrar", logo, dzinpa significa "fixação" ou "avareza". Já que não temos uma percepção clara, devemos agarrar-nos à imprecisão e à incerteza. Ao fazer isso, começamos a comportar-nos como uma bola de pingue-pongue, que não possui inteligência alguma, mas segue somente a orientação da raquete. Somos golpeados de cá para lá por nossa fixação, como uma bola de pingue-pongue.

Gostaríamos de expressar-nos quando sentimos que somos sabotados ou não somos reconhecidos - gostaríamos de expor-nos a riscos - mas de novo, somos "pingue-pongueados". Às vezes sentimos que temos tanta responsabilidades que gostaríamos de aposentar-nos e desaparecer, mas novamente nos tornamos uma bola de pingue-pongue. O que quer que façamos, nossas ações não são perfeitamente corretas porque, baseados nesse jogo neurótico, continuamos a ser "pingue-pongueados." Embora possa parecer que a bola de pingue-pongue esteja comandando os jogadores, embora pareça surpreendente que uma bola tão pequena tenha tanto poder para dirigir as ações dos jogadores e até mesmo atrair os espectadores e fazê-los prestar atenção nela enquanto vai de um lado para o outro - na realidade isso não é verdade. A bola de pingue-pongue é apenas uma bola. Ela não possui nenhuma inteligência; funciona apenas por reflexo.

3. O efeito do samsara: o sofrimento

Finalmente, chegamos ao efeito. A semente do samsara é o aturdimento; a causa do samsara é a fixação; o efeito é o sofrimento. Já que temos sido jogados constantemente de um lado para o outro, começamos a sentir vertigem. Como uma bola de pingue-pongue, sentimos muita tontura e todo o corpo dói, tantas vezes fomos golpeados de um lado para o outro. A sensação de dor é enorme. Essa é a definição do samsara.

De acordo com a terceira nobre verdade, estamos prevenindo o samsara, ou causando sua cessação, comportando-nos como sang-gye, ou um buda. Parece que a única maneira de poder identificar-nos, ainda que por um breve instante, com a experiência da budeidade é por meio da experiência da prática da atenção plena e da consciência panorâmica. Essa é a mensagem. Nesse ponto, a cessação não é considerada como cessação pura ou resposta completa - ela é a mensagem de que isso é possível. É possível desenvolver a compreensão. É possível desfazer o aspecto mítico e ficcional da cessação e ter experiência de um lampejo de cessação como uma realidade, embora isso possa ser apenas um lampejo muito curto, muito pequeno.

O primeiro passo é dar-nos conta de que estamos em uma desordem samsárica. Embora as pessoas ouçam isso por muitos anos, elas ainda não reconhecem verdadeiramente que estão sendo golpeadas como uma bola de pingue-pongue. É precisamente por isso que estamos no samsara - porque sabemos o que estamos fazendo, mas ainda assim continuamos a fazê-lo. No entanto, ao sermos uma bola de pingue-pongue, ainda temos brechas durante as quais não a somos. Há brechas nas quais experimentamos alguma outra coisa. De fato, enquanto somos uma bola de pingue-pongue, ocorre constantemente outra experiência: a experiência da consciência panorâmica. Começamos a dar-nos conta do que somos, de quem somos e do que estamos fazendo. Mas essa constatação pode levar ao materialismo espiritual, que é outra forma de fixação - estamos sendo "pingue-pongueados" pela espiritualidade. Contudo, também nos damos conta de que, se não houver velocidade, não haverá fixação; portanto, poderemos transcender o materialismo espiritual.

O que contrasta com o samsara é o nirvana, ou paz. Todavia, nesse ponto não temos nada senão o samsara e pequenos pontos de luz que surgem do meio da escuridão. Nossa primeira alternativa ao samsara é a prática da consciência panorâmica e da atenção plena, que nos transporta pela viagem das quatro nobres verdades. Essa parece ser a única maneira. Temos de retroceder para tornar-nos como o Buda. A terceira nobre verdade é simples: o nirvana é possível. Antes de termos completado a cessação, temos de ter a mensagem de que é possível ter a cessação completa.

É possível ter a experiência de um momento do nirvana, um lampejo de cessação. Foi isso que o Buda ensinou em seu primeiro sermão em Sarnath, quando ministrou os ensinamentos sobre as quatro nobres verdades, repetidos por quatro vezes. O Buda disse que a cessação poderia ser experimentada. Disse que o sofrimento deveria ser conhecido; dever-se-ia renunciar à origem do sofrimentoa cessação do sofrimento deveria ser alcançada; e o caminho deveria ser considerado a verdadeira solução.

(As quatro nobres verdades do Budismo e o caminho da Libertação - Chögyam  Trungpa - Compilado e organizado por Judith L Lief - Cultrix)


Viver consciente - Fazer consciente

Podemos dar muitas voltas ao redor do tema disciplina, mas em qualquer delas chegaremos ao ponto central de tudo, a consciência. A atenção desperta é, por si mesma, uma ação de mudança.

Se prestar atenção em sua respiração neste momento, você irá alterá-la; ou respirará mais lentamente, ou mais profundamente, mas não conseguirá prestar atenção na respiração sem modificá-la, pois esse é um atributo da atenção.

Quando damos atenção a uma pessoa, vamos obter uma visão diferente do momento imediatamente anterior. Quando damos atenção a uma ideia que está sendo apresentada, ela imediatamente ganha contornos dentro de nossa imaginação, e isso é um ato de transformação. Ao darmos atenção a um objeto, reconhecemos qualidades ou valores que o  modificam em nossa percepção.

Quando colocamos nossa atenção em algo estamos produzindo mudanças. Esse é um atributo básico da atenção, que é a prática do viver consciente. Com o simples ato de colocar atenção sobre algo, aquilo já adquirirá contornos novos e estaremos mais conscientes de nossa relação com a pessoa, o objeto, a circunstância ou o comportamento.

Outro atributo da consciência é a compreensão. Quanto mais compreendemos determinado processo, mais o dominamos, mais somos capazes de criar sobre ele e mais diversas são as alternativas de que dispomos para alterá-lo.

A compreensão é fruto do conhecimento. Assim, aprender sobre qualquer tema que nos interesse mudar é a forma de compreender o processo e nos tornarmos hábeis para produzir a mudança.
Se aliarmos a atenção à compreensão, então teremos a consciência, que é por si mesma um processo disciplinador. Se soubermos, compreendermos e colocarmos atenção, então mudaremos, sem que seja necessário sobreesforço, trabalho excessivo ou sacrifícios. Esses caminhos são necessários quando nos falta consciência.

(Dulce Magalhães, PhD - Manual da Disciplina para  Indisciplinados - Editora Saraiva)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O poder dos pensamentos vacilantes

A ideia do Künjung, a origem do sofrimento, é que ele progride. Quando nos projetamos numa situação ou em um mundo específico, começamos com um deslocamento da atenção muito pequeno e de curtíssima duração; e a partir disso as coisas são aumentadas e exageradas. De acordo com abhidharma,  a ligação entre as ideias pequenas e as grandes é muito importante. Por exemplo, dramas súbitos, tais como assassinar alguém ou criar um caos imenso, começam no nível de conceitos ínfimos e pequeníssimos deslocamentos de atenção. Algo grande está sendo posto em funcionamento a partir de algo muito pequeno. O primeiro pequeno indício de não gostar ou de ser atraído por alguém aumenta rapidamente e no final causa um drama emocional ou psíquico de escala muitíssimo maior. Portanto, no princípio, tudo começa numa escala minúscula e depois se expande. As coisas começam a crescer e expandir-se até que se tornam muito grandes - imensuravelmente grandes, em muitos casos. Nós mesmos podemos experimentar isso. Esses deslocamentos ínfimos de atenção são o que criam as emoções agressivas, a paixão, a ignorância e tudo o mais. embora sejam aparentemente avassaladoras, enormes e grosseiras, essas emoções tem sua origem nas distorções sutis que ocorrem constantemente em nossa mente.
Devido a esse súbito deslocamento de atenção e porque nossa mente é basicamente destreinada, começamos a ter uma sensação de despreocupação a respeito disso tudo. Estamos constantemente à procura de possibilidades de apropriar-nos de alguém, ou de destruir alguém, ou de aliciar alguém para o nosso mundo. A luta acontece o tempo todo. O problema é que não nos relacionamos adequadamente com essa condição enganadora e evasiva. Temos a experiência do surgimento de tais pensamentos agora mesmo, o tempo todo; caso contrário, a segunda nobre verdade não seria verdadeira - ela seria apenas uma teoria. Pessoas que têm praticado meditação e estudado os ensinamentos, que tem se aberto e interessado, podem receber esse padrão. Se somos praticantes , estamos esfolados e sem pele, o que é bom; no entanto, se somos muito maduros, talvez queiramos escapar ou tentar desenvolver uma casca mais grossa. Ser capaz de relacionar-se com as sutilezas das mudanças mentais está associado ao princípio hinayama de prestar atenção, em pequenas doses, a cada atividade que nos dedicamos. Não existe algo como um psicodrama súbito sem nenhuma causa ou efeito. Cada psicodrama que ocorre em nossa mente ou em nossos atos tem sua origem nos pequenos pensamentos vacilantes e nas pequenas oscilações de atenção.

(As 4 Nobres Verdades do Budismo e o Caminho da Libertação - Chögyam Trungpa - Cultrix)


A Parábola do Semeador - Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec

5 - Jesus, ao sair de casa, sentou-se à beira-mar, e uma grande multidão de pessoas reuniu-se ao seu redor. Assim, Ele subiu em um barco, e...